 Segundo Rosana, "a religião
exerce um papel fundamental na sociedade e orienta a vida comportamental do
leigo". A Igreja convida-o a inserir-se nas realidades políticas do país,
fazendo-o conhecedor desse instrumento eficaz de caridade.
Repórter: Que
relação existe entre a política e o papel dos leigos na sociedade?
Teóloga: O Magistério da Igreja,
através da Doutrina Social da Igreja, coloca para os leigos, uma
responsabilidade muito grande com relação à política. Na Encíclica "Deus
Caritas Est", por exemplo, o Papa Bento XVI faz a relação da política com
a caridade.
A política determina que todos tenham acesso ao bem
comum. Pela política, posso escolher as pessoas que vão fazer com que os meus
irmãos que estão longe sejam atendidos em suas necessidades. Por isso, é que se
fala que a política é a melhor expressão de caridade. Ela estende o braço
onde não posso alcançar fisicamente.
Deus me confia, por exemplo, pessoas que estão no
sertão do Maranhão. Fisicamente não posso estar lá. Mas, na minha escolha
política eu estarei lá através dos políticos que vão realizar a busca e o
alcance do bem comum para aquele povo.
Repórter: A
religião não tem interesse só na vida espiritual do leigo, mas também na
social. Onde e como essas questões se encontram?
Teóloga: Não existe religião que não
abarca a questão social e a sociedade como um todo. O Magistério da Igreja vai
falar de uma divisão grave entre fé e vida. Esse divórcio entre fé e vida
causou problemas enormes. Como se eu pudesse cuidar só da minha “alma”, da
“minha salvação”, e não contemplar a vida como um todo.
Deus, através de Jesus no Mistério da Encarnação,
mostra o projeto social d'Ele para a humanidade. E toda a escritura revela a
vida de um povo comum. De um povo escolhido, sim, mas concreto, que tem terra,
que pisa, que suja os seus pés. O povo de Deus não é algo metafórico ou uma
idéia quimérica, poética. O povo de Israel é um povo concreto. E o povo de
Deus, da sua Igreja hoje é concreto. Ele vive, ele mora, ele tem doença, ele
tem que aprender, ele tem que adquirir conhecimento. Então, esse bem comum que
é vontade de Deus, e que vai dar possibilidade para que eu me desenvolva
integralmente como pessoa, está intimamente relacionado com a questão política.
Repórter: Até
que ponto a questão moral religiosa interfere na Política? Qual a relação da
moral com a ética política?
Teóloga: A ética é o conjunto dos
princípios e dos valores que iluminam e orientam a moral que é o agir e a
prática. Sem dúvida nenhuma, o aspecto moral tem algumas vertentes. Nós somos
feitos pelo tempo, pelo espaço. Quer dizer, de onde venho? Qual minha idade? Em
que sociedade eu cresci? Tudo isso é determinante para o meu comportamento. Por
isso, a moral religiosa vem para resgatar os valores originários que vão
permitir esse desenvolvimento ético da pessoa.
Vejo que a questão moral vai esbarrar muito na
concepção de Deus que as pessoas tem. Muitas vezes, nós privatizamos Deus. E
quando eu privatizo Deus, perco a dimensão da comunidade. Deus passa a ser só
meu, então eu não me relaciono com o outro. Não me relacionando com o outro a política
perde o sentido.
Nós lamentamos a forma, nós lamentamos as moradias
indignas, nós lamentamos as mortes nas filas dos postos de saúde, mas não nos
comprometemos à mudança, quando Deus é privado. Agora quando nosso Deus é o
Deus de Abraão, de Isaac, e de Jacó, é o Deus que se revela como comunidade
pela própria Trindade, não ficamos acomodados. Aliás, João Paulo II, no
Documento “Christifideles laici”, fala assim: "Não é lícito hoje a ninguém
ficar inativo". Porque a omissão diante da sociedade gera morte.
Repórter: Qual
é o limite da participação do leigo na política. Principalmente em relação aos
partidos políticos?
Teóloga: A Igreja orienta, desde o
Concilio Vaticano II, o leigo a escolher o candidato que ele realmente conheça.
Ele tem que buscar conhecer o candidato. Ele não pode ceder quando alguém
apresentar um santinho com um número e disser: "vota nesse!" Isso é
irresponsabilidade, não só com a minha vida, mas, com a vida de tantos. Então,
o cristão, tem uma responsabilidade de escolha. Ele tem que se informar sobre
quem é a pessoa.
Ele tem que acompanhar essa pessoa. Ele tem que
acompanhar aquilo que o candidato prometeu, porque é um tempo de muitas
promessas. Esta é a realidade do compromisso cristão em relação à política. Não
é simplesmente eu passar a minha responsabilidade de cidadão para o político
que eu elejo. Porque eu abdico da minha cidadania quando eu passo pra ele a
minha responsabilidade. Eleger não quer dizer abdicar da cidadania, pelo
contrário, é estar junto para construir uma sociedade nos valores que nós
acreditamos que se relaciona e que está diretamente ligado ao projeto do Rei.
Repórter: Qual
deve ser o foco do leigo na hora de escolher o candidato, a pessoa ou o
partido?
Teóloga: A pessoa não faz o papel
sozinha, ela tem que estar dentro do grupo e o grupo é o partido. Este é o
modelo de democracia que nós escolhemos. O candidato não é sozinho, porque
sozinho ele não vai fazer nada. Então, obviamente, o partido tem um peso muito
grande. Mas também, é obvio que esse candidato tem que ser visto. Porque mesmo
a pessoa estando num partido, ela precisa ser conhecida, precisamos saber se no
seu histórico ela não é uma pessoa corrupta, com processos. Porque se for não
dá pra elegermos tal pessoa. Então nós temos que saber os projetos, os planos
de governo. Nós temos que conhecer o candidato e o partido, senão a gente peca
por omissão.
Repórter: A
Igreja perdeu a postura de radicalidade que se confundia com o partido da
esquerda, na época da ditadura militar? A Igreja deixou de ser radical?
Teóloga: A Igreja não pode perder sua
missão profética, ela tem que denunciar. Então, na época da ditadura, a Igreja
tinha que denunciar. Hoje ela está num momento histórico diferente, mas que tem
que continuar denunciando. Ela não pode perder o anúncio da boa nova, e nem
deixar de falar das injustiças. Muitos podem pensar que houve uma mudança
situacional e que não existe mais injustiças sociais, isso é um engano.
Aconteceram algumas melhoras, sim, mas, sem dúvida
nenhuma, as injustiças sociais continuam. Basta chegarmos à periferia das
grandes cidades e olharmos o lugar onde moramos pra encontrar pessoas que vivem
situações calamitosas. Então, a Igreja não pode perder a sua vocação de profeta.
Não é uma questão de esquerda, de centro ou de direita, é uma questão de
verdade e de anúncio. Se a verdade estiver em uma dessas posições é lá que a
Igreja vai estar. E é lá que devemos estar.
Repórter: Sobre
a formação do leigo para a política
Teóloga: Nós nos preocupamos muito,
quando chega o ano de eleição, com a formação do povo. Percebemos que as coisas
estão um pouco perdidas. É preciso que se forme o leigo para as questões
sociais e políticas. É exigência do Magistério da Igreja que ele seja formado
para assumir sua missão no mundo. Na transformação do mundo segundo os
desígnios de Deus.
E, para isso, o leigo tem que ser bem formado dentro
da Doutrina Social da Igreja. Ele tem que saber que sua omissão no campo
social, gera uma cultura de morte. E já que nós somos defensores por excelência
da vida, precisamos não só defender a vida que começa no útero, mas a vida que
continua depois que a criança vem ao mundo. E uma criança não pode permanecer
em cima do esgoto a céu aberto, sem escola, sem possibilidade de trabalho, sem
moradia digna, e muito menos sem a dignidade de ser imagem de Deus.
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