Nesta entrevista o diácono Nelsinho Correa afirma que: "Ser gente é você não ter medo dos seus limites."
Fale para
nós sobre um fato marcante de sua infância e, que você traz consigo até hoje?
Bem, um fato marcante, embora seja um fato
triste, foi o acidente que eu tive com 12 anos de idade. Sofri um acidente
grave e, por esse acidente, Deus e Nossa Senhora entraram em minha vida. Esse
fato foi marcante, porque deu a guinada na minha vida, acho que esse acidente,
para mim, fala que Deus, de um mal tira um bem. Deus tirou um bem desse
acidente que mudou totalmente a minha vida. A partir dele, minha deu outra
guinada.
Como você lida com o sofrimento?
De uma maneira bem alegre, porque eu "ralei", eu sofri bastante, eu
sofri dor. Hoje, eu não tenho muita paciência com dor, não gosto das dores de
cabeça, tomo logo um remedinho; eu não sou hipocondríaco, eu sofri bastante,
senti muita dor física, fui operado 11 vezes, então, eu sofri "pra
caramba", mas Deus me deu muito bom humor. Eu me lembro que, quando eu ia
operar, eu falava para os médicos assim: "Se vocês fossem gente boa, não
usavam máscaras, vocês são todos bandidos". Eu brincava, sempre brinquei,
acho que vem de família.
Como é seu relacionamento com Nossa Senhora?
Nossa Senhora Aparecida! Eu conheci Nossa Senhora, primeiro que Jesus; foi Ela
quem me apresentou Jesus. Eu nasci no dia 13 de maio, dia de Nossa Senhora
Fátima; meu acidente foi no dia 31 de maio, dia da Visitação de Nossa Senhora a
sua prima Santa Isabel; o nome da minha mulher é Márcia, começa com M; minha
sogra se chama Maria Antônia; minha mãe, Maria Rosa; tenho uma filha chamada
Miriam. Minha missa de missão aos primeiros votos como diácono, foi no dia de
Nossa Senhora de Schöestant; minha ordenação diaconal foi no dia 8 de dezembro,
dia de Nossa Senhora Imaculada. Por aí, se tem uma noção de quem é Nossa
Senhora na minha vida. Por isso, alguém que fala mal de Nossa Senhora perto de
mim, está arriscado a ficar sem os dois dentinhos da frente.
Uma virtude de sua mãe, Maria Rosa, que você mais admira?
A dona Rosa é muito alegre, minha mãe é muito engraçada. No meu livro
"Retalho de Vida", eu conto que minha mãe sempre usou materiais
pedagógicos para me educar, tipo: espada de São Jorge, sandália Havaianas,
entendeu? Vara de amora... Minha mãe é muito engraçada.
Em que você mais parece com seu pai?
Na música. Meu pai é músico, toca cavaquinho, toca bandolim e percussão. Eu
acho que tenho a musicalidade e a bondade do meu pai. Meu pai é uma pessoa
muito boa e, o gostar de cozinhar – o pessoal quando ia trabalhar lá em casa,
capinar o quintal, varrer um quintal –nossa, ele não sabia o que fazia para o
almoço. Meu pai é muito acolhedor, acho que eu herdei do meu pai isso.
Você tem algumas composições que nasceram do sofrimento?
Nossa Senhora Aparecida! Eu acho que as músicas mais bonitas que eu fiz, foram
em situações de sofrimento. Até mesmo "Gente Linda", essa música fala
de amor, terminar um namoro, perder um amor, não sabe se começa ou se termina,
aquelas coisas assim... Por exemplo, a música "Por que você tem
medo?", fala de amor, de dor... "Não dá mais para voltar";
"Quem me segurou foi Deus", eu estava "só o pó da beirada"
quando eu fiz essa música, o "pó do pó". Eu acho que as músicas mais
bonitas que eu conseguir fazer, "Saudade", só se tem saudade...
nossa, foi em um momento de dor. Mas a dor, em Deus, fica até bonita, não é
masoquismo não, mas ela se transforma.
Você lembra de algum fato engraçado da sua vida, que mais lhe vem à
recordação?
Tem muitos fatos engraçados na minha vida, mas eu, no meu livro, conto vários
fatos engraçados. Um deles, por exemplo, como eu falei, minha mãe sempre usava
instrumentos pedagógicos para me educar, e, um dia, só porque que eu joguei um
"tijolinho", um tijolo "pequeno" no telhado da vizinha, um
tijolo "pequeno" assim, de um quilo, mais ou menos, minha mãe disse
que ia me "pegar"; aí, uma bondosa vizinha se encarregou de contar
para minha mãe...(risos), uma vizinha muito boa, muito amiga, foi logo contar
para minha mãe o que eu tinha feito. E eu cheguei em casa, minha mãe estava
lavando roupa, e ela falou: "Eu vou te pegar menino". E eu fiquei com
dó da velhinha, dona Aurora, coitada! Eu falei: "Eu não vou correr, pode
vir!" Minha mãe veio para o meu lado, eu fechei até o olho assim, ela
falou: "Você não vai correr?" – porque eu sempre corria – ela falou:
"não corre que é pior", quem vai parar para apanhar, eu vazava. Mas,
dessa vez eu fiquei com dó da dona Lola e minha mãe não me bateu. Quando ela
foi chegando perto de mim, eu fechei o olho, ela me abraçou e falou: "Ê
menino levado"! E ria, ria e ria... Aí depois eu chorei, porque eu merecia
apanhar, ia levar uma surra, mas minha mãe deu a maior surra da minha vida sem
me encostar um dedo. É uma coisa que eu lembro assim, com muito carinho.
Qual é a maior formação que o senhor tira do seu relacionamento com
Padre Jonas Abib?
A humildade do Padre Jonas. Quando eu vejo alguém da Canção Nova com narizinho
empinado, minha vontade é (eu não sou Pitangui) de botar o nariz dessa pessoa
no lugar com uma pequena pancada. Padre Jonas é humildade, é um homem que sabe
pedir: “por favor”. Ele nos diz: “será que dá para fazer isso para mim.” É a
humildade em pessoa. Eu
conheço o padre no palco, eu conheço o padre no hospital, pois ajudei a dar
banho nele quando ficou doente. Eu o conheço no dia-a-dia, há 30 anos da minha
vida. Se eu tirasse 30 anos da minha vida, ficam só 14 anos da minha
adolescência, começando tudo.... Então, eu posso dizer que a humildade do padre
é uma coisa que me fascina, assim como a simplicidade dele. Quem dera se cada
um que se diz que é Canção Nova tivesse 10% da humildade dele. Isso é que o
valeria.
Como é ser Canção Nova?
Olha, ser Canção Nova não é um título, não é um rótulo, não é um crachá que
você usa. Ser Canção Nova é passar um Deus vivo e vivido aos outros. Pega o
exemplo do padre Jonas, quem bate o olho nele sente paz, porque ele transmite
paz, serenidade, amor. Ele comove as pessoas, então, ser Canção Nova é ser
gente, mas gente de Deus.
O que é ser gente?
Ser gente é você não ter medo dos seus limites, tem pessoas que querem dar uma
de "super-homem". Eu era assim, agora sou assim... Aquele
"super-homem"... Parece que nem solta “pum”, solta incenso. Tem gente
que é assim, é tão perfeito que..., então, ser gente é admitir que tem erros,
que você precisa pedir desculpas, que você erra também, que você não é dono da
verdade. Tem gente que esconde isso aí. A gente não precisa esconder os nossos
limites, não.
Você é conhecido como "diácono da misericórdia", onde entra a
misericórdia de Deus em sua vida?
Rapaz do céu, isso me compromete muito. O Gabriel me diz: “Às vezes, o senhor
não tem misericórdia.” Ele fala isso para mim. Eu sou conhecido assim, porque
meu lema diaconal é este: “É a misericórdia que eu quero”. Eu fico
pensando: a gente é tão pecador, né? A gente é tão cheio de falhas. Deus foi
tão misericordioso com a gente. Como eu não vou ser com os outros. Então, tem
que ser a misericórdia mesmo! O que eu experimento na minha vida é a
misericórdia, e ela é a resposta para tudo.
Há uma frase do Papa João Paulo II que te marca muito, que diz: “Jesus
rosto divino do homem. Jesus rosto humano de Deus.” O que aconteceu para que
essa frase se tornasse tão importante para você?
Eu vejo que a expressão concreta da humanidade é Jesus. Ele foi o homem
perfeito. Mas quanto mais humano a gente é, mas imagem de Deus a gente é. E
Jesus é a perfeição do humano.
Qual o primeiro sentimento que te vem quando se pronuncia esses nomes:
Lucas, Gabriel e Miriam?
Herança. Os milagres de Deus na minha vida. Eu vejo que eles marcam a minha
vida. Eu aprendo muito com elas, pois desde pequenininhos que eles me formam,
me falam, me mostram que eu estou errado. São o termômetro da minha vida. Não
me adianta ser o diácono da misericórdia, ser o Nelsinho Corrêa, e na minha
casa eu ser um carrasco.
É possível resumir o papel de esposa, de amiga, de companheira da
Márcia Corrêa na sua vida?
A Márcia Corrêa é aquela que me põe "os pés no chão". Às vezes, ela
me põe tanto no chão, que fica quase só o nariz pra fora (risos). Às vezes, ela
puxa muito para o chão, entendeu? Ela intera, eu com a cabeça. Ela é meu
equilíbrio. Rapaz, nós somos muito diferentes. Você a conhece, você sabe com é
a Márcia. Ela é um barato, eu curto muito a Márcia porque ela é um barato. Às
vezes, ela perde a linha comigo, pois ela é o oposto de mim. Ela é sensata,
calminha, educada, fina, metódica. Ela tem horário, tem ritmo. E eu sou o
oposto e, como os opostos se atraem - o charme está aí! Como ela põe o meu pé
no chão, ela me puxa muito e eu falo pra ela: “deixa pelo menos o nariz para
fora” ( ela vai ver isso aqui e vai dar problema...) pra eu dar uma
respiradinha. Mas é muito engraçado o nosso relacionamento, eu sou muito franco
e ela também, então, nisso a gente se entende e fica feliz.
Novo CD: “Quem me segurou foi Deus”. Quando surgiu a inspiração para
esse trabalho?
Rapaz, isso estava parecendo “parto de mula”, porque “óia” faz tempo hein?!. Na
verdade, gravando assim, estou desde janeiro, mas há 2 anos que entrei no
estúdio. Entrei em um dia e sai no outro. Aí o pessoal ficou com raiva de mim e
brigou comigo. Até o Eto ficou bravo porque eu não entrei. Mas, não tinha
aquela hora... Quando eu senti que era a hora, disse: “nem que se for pra
gravar eu e uma viola sem corda, que vai sair agora esse CD vai!”. E saiu
realmente. E está um CD muito maduro. Se ninguém gostar, eu gostei muito. Fiz
de propósito um CD bem diferente. Acho que é o CD mais maduro de minha vida,
por isso, estou gostando demais.
Onde Deus te segurou ?
Rapaz! Deus me segurou em tantas situações! Deus me segurou em muitas
situações. Ele segurou minha vida em um acidente, não me deixando morrer.
Segurou na área da afetividade, da sexualidade. Casei com 32 anos, sem ter tido
uma relação sexual. Ele me segurou nos momentos de ira, que iria ficar bravo.
Eu sou bravo também, dizem que na mesma proporção em que eu sou fraterno.
Quando é para dar uma chamada em alguém, eu fico com dó da pessoa, porque vou
lá eu tiro a casca. Tiro o “courinho”, menino, com toda a verdade! Mas é
engraçado, pois você faz isso e a pessoa fica te amando ainda (risos)! Vejo que
é uma graça de Deus. Deus me segurou em muitos momentos e me segura ainda.
Livro: “Retalhos de vida”. Com isso você vê que a vida pode ser
reconstruída, sempre recomeçada?
É, a vida é feita de várias coisas diferentes. Quando eu comecei a escrever
este livro, eu comecei de trás para frente. Quando vi, estava na gráfica já. Eu
falei: “Esse livro é uma colcha de retalhos”, aí, o padre Jonas ouviu e falou:
“É mesmo. Então pode se chamar “Retalhos de Vida”. O padre Jonas se empolgou
com o livro, entendeu? Ele mesmo bolou a capa. Aí que eu fui acabar o livro.
Fui escrever o resto. E começou de trás para frente, o resto. Ele é retalho de
vida, porque são várias facetas. Mostra um pouco da minha infância. Ele tem um
quê de romance, minhas histórias de amor, quem está apaixonado, por exemplo,
está aberto ao amor, quem chegar seja bem-vindo, vai gostar porque eu conto uns
lances das minhas namoradas. A Márcia sabe de tudo isso aí. Conto da minha
infância, conto um pouco do acidente. Ele começa com romance, depois tem
histórias engraçadas. Você vai "rachar o bico de rir" com umas coisas
que eu contei ali. Eu falo bem rasgado mesmo! Então, é um livro bem sincero,
mas eu não tenho nenhuma pretensão, eu não sou um escritor. Mas eu gostei, e no
final, o resultado, eu acho que vai ficar bacana. É uma colcha de retalhos, são
vários assuntos ao mesmo tempo. Os capítulos são independentes um do outro. Tem
hora que é sobre as crianças, tem hora que é sobre casamento, tem hora que é
sobre a família, tem hora que são frases. Então, está bem legal.
Você, pessoalmente, tem um sonho, uma meta?
Eu tenho um sonho de um dia gravar um disco com uma orquestra, cantar com uma
orquestra, acho que antes de morrer, eu vou realizar este sonho; agora, uma
meta é passar este sonho de ser comunidade, de ser Canção Nova para o mundo
inteiro. Acho que sou sonhador, mas eu quero morrer sonhando assim. Quando eu
perder este sonho, pode me enterrar, que já estou "morto". Eu imagino
que a vida fraterna é isso.