 A doutora Ana María Yévenez Ramírez, socióloga chilena e
especialista em temas da família, faz uma análise da ideologia de
gênero desde as ciências sociais e particularmente a partir da análise
cultural.
O tema da ideologia de gênero - em sua vertente mais difundida de
“equidade de gênero” - ganhou muitas posições no cenário social e na
agenda política; contudo, continua sendo um tópico difícil de se tratar
visto que em muitos aspectos e em suas origens aponta em sentido
contrário à essência da família.
A doutora Ana María Yévenez Ramírez, socióloga chilena e
especialista em temas da família, faz uma análise da ideologia de
gênero desde as ciências sociais e particularmente a partir da análise
cultural. Esclarece que não pretende “demonizar absolutamente nada”, o
que não significa a ausência de uma visão crítica.
O gênero é uma “construção” social?
A ideologia de gênero tem suas raízes nos movimentos feministas
radicais dos anos sessenta, já que alguns autores que iniciaram esta
ideologia dizem que o gênero é uma construção cultural, por conseguinte
não é resultado do sexo, nem tão aparentemente fixo como o próprio
sexo. Ao teorizar sobre isto, o gênero vem a ser como um artifício
livre de ataduras; em consequência, homem e masculino poderiam
significar tanto um corpo feminino como um masculino; mulher e
feminino, tanto um corpo masculino como um feminino.
Estas ideias estiveram presentes dentro do debate que se fez tanto
na opinião pública como nas discussões da IV Conferência da Mulher,
patrocinada pela ONU em Pequim em 1995: As feministas de gênero
manifestaram a urgência de desconstruir os papéis sociais de homem e
mulher porque esta socialização afetava a mulher negativa e
injustamente. O homem-marido, desde esta perspectiva, então aparece
como um opressor, e passamos aqui do que é o conceito de luta de
classes ao que podemos chamar luta de sexos.
Assim, o matrimônio e a família podem ser vistos quase como uma
seita, e a maternidade como um estorvo. Toda diferença entre o homem e
a mulher, sob esta visão, é construção social e portanto pode ser
mudada. Já não existem, desta forma, dois sexo, mas muitas orientações
sexuais.
Como uma ideologia tão distante do normal teve tanta acolhida?
Porque abordou um problema real, a situação desvalorizada da mulher.
Desta forma, a ideologia de gênero faz surgir o conceito de tomada de
poder político, econômico, trabalhista e na relação com o casal.
Deve-se ter em conta que as linhas originais sofreram grandes mudanças.
Não chega às pessoas o que é a ideologia de gênero, digamos, de maneira
quimicamente pura, como acontecem com todas as coisas. Particularmente
na América Latina, vivemos processos de individuação e mestiçagem. Por
exemplo, fala-se do combate do machismo, como bandeira de luta tão
presente no México. No Chile, há muitas mulheres que participaram de
programas dos diferentes governos no tema da igualdade de gênero, mas
quando se lhes propõem estes outros temas, a visão da família, a visão
da maternidade, não concordam com isso.
O que hoje se aplica como equidade de gênero não é o que originalmente se aplicava a este pensamento; este processo de mestiçagem é
parte da mudança cultural mais profunda que se produz em nossa
sociedade. Basta lembrar que a mudança se inicia em como usamos nossas
palavras, na linguagem que utilizamos. Junto com a crítica que se
dirige a esta ideologia, devemos fazer-nos uma autocrítica como Igreja
Católica: que resposta nós demos a esta problemática de fundo? Sinto
que muito do que aconteceu é nossa responsabilidade por nosso silêncio,
por não termos respondido a essa necessidade que havia dentro da
cultura.
A ideologia de gênero oferece alguma contribuição positiva?
Primeiramente, colocar a mulher no foco porque objetivamente a
mulher estava sendo de alguma forma ignorada: parte disso é porque o
tema do trabalho remunerado considerava o trabalho doméstico muito
distante. Também a ideologia de gênero trouxe melhoras substanciais em
matéria de saúde da mulher; maior cuidado físico, por exemplo na
detenção de alguns tipos de câncer; uma maior preocupação pelo corpo;
trouxe também uma maior proteção à mulher quanto ao tema da violência
familiar; ou em matéria trabalhista. Permitiu melhorar o acesso a uma
maior educação formal da mulher.
E negativa?
A ideologia de gênero fomentou uma tomada de poder antagônica da
mulher contra o homem. Na prática, transformou a mulher em um objeto
que era exatamente o que se pretendia combater. Digo um objeto, porque
segundo muitos textos dos estudos que estão sendo desenvolvidos sobre
esta matéria, se privilegia a dimensão econômica, do desenvolvimento,
do trabalho acima do desenvolvimento humano e próprio da mulher,
consequência precisamente do anterior é que o desenvolvimento integral
da mulher está se tornando um obstáculo, e com isso a mulher está sendo
privada da felicidade.
Finalmente, quais são as repercussões na família?
Não é um mistério para ninguém como aumentou o número de mulheres
assassinadas por seus companheiros porque não se trabalhou com os
homens na mesma velocidade com que se trabalhou com as mulheres. Também
causou impacto no tema do testemunho, porque ao final nossos jovens se
entusiasmam pelo matrimônio pelo testemunho que recebem, testemunho de
amor, de companheirismo. E mais, está-se colocando em cheque o
desenvolvimento dos povos.
Fonte: Zenit
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