 Acompanhe a entrevista com o Padre Gabriele Amorth nos fala sobre o novo Ritual de Exorcismo, como o malígno infiltra-se na Igreja e muito mais.
1. Padre Amorth, está pronta finalmente a tradução italiana do novo Ritual para os exorcistas.
GABRIELE AMORTH: Sim, está pronta. No ano passado a
Conferência Episcopal não quis aprová-la porque havia erros de tradução
do latim. E nós, os exorcistas, que deveríamos utilizá-la, aproveitamos
para indicar uma vez mais que discordávamos sobre muitos pontos do novo
Ritual. O texto base em latim continua sem mudanças nesta tradução. E
um Ritual tão esperado no fim transformou-se numa burla. Um incrível
empecilho que ameaça impedir agirmos contra o demônio.
2. Uma acusação pesada. O Sr. se refere a quê?
GABRIELE AMORTH: Faço-lhe dois exemplos somente.
Clamorosos. No ponto 15 fala-se dos malefícios e de como comportar-se
nesse caso. O malefício é um mal causado a uma pessoa recorrendo ao
diabo. Pode ser feito em diversas formas, como feitiços, maldições,
maus-olhados, vodu, macumba. O Ritual Romano explicava como
enfrentá-lo. O novo Ritual, ao contrário, afirma categoricamente que há
uma proibição absoluta de fazer exorcismos nesses casos. Absurdo. Os
malefícios são de longe a causa mais freqüente de possessões e males
causados pelo demônio: não menos de 90 por cento. É como dizer aos
exorcistas que não ajam mais. O ponto 16 então afirma que não se devem
fazer exorcismos se não existe a certeza da presença diabólica. Esta é
uma obra-prima de incompetência, pois se tem a certeza da presença do
demônio numa pessoa só fazendo o exorcismo. Ademais, os responsáveis
não perceberam que contradiziam nos dois pontos o Catecismo da Igreja
Católica, que indica o exorcismo seja no caso de possessões diabólicas
seja no caso de males causados pelo demônio. E diz também para ser
feito tanto com pessoas quanto com coisas. E nas coisas não existe
nunca a presença do demônio, existe só a sua influência.
As afirmações contidas no novo Ritual são gravíssimas e muito danosas, fruto de ignorância e inexperiência.
3. Mas não foi elaborado por especialistas?
GABRIELE AMORTH: De forma alguma. Nestes dez anos
trabalharam com o Ritual duas comissões: uma composta por cardeais, que
cuidou dos "prenotanda", ou seja, das disposições iniciais; e outra,
que cuidou das orações. Posso afirmar com certeza que nenhum dos
membros das duas comissões fez exorcismos nem assistiu a exorcismos nem
teve a menor idéia do que são os exorcismos.
Este é o erro, o pecado original, desse Ritual. Nenhum dos que colaboraram era especialista em exorcismos.
4. Como é possível?
GABRIELE AMORTH: Não me pergunte. Durante o Concílio
Vaticano II cada comissão era coadjuvada por um grupo de especialistas
que apoiava os bispos. E o costume manteve-se também depois do
Concílio, cada vez que se refizeram partes do Ritual Romano. Mas não
neste caso. E se havia um tema no qual eram necessários especialistas,
era este.
5. E em vez disso?
GABRIELE AMORTH: Em vez disso, nós, os exorcistas, nunca
fomos consultados. Além do mais, as sugestões que demos foram recebidas
com mal-estar pelas comissões.
A história é paradoxal. Quer que eu lhe conte?
Claro.
GABRIELE AMORTH: À medida que, como tinha pedido o
Concílio Vaticano II, as várias partes do Ritual Romano eram revisadas,
os exorcistas aguardavam que viesse tratado também o título XII, isto
é, o Ritual dos Exorcismos. Mas evidentemente não era considerado um
tema relevante, dado que passavam-se os anos e não acontecia nada.
Depois, de repente, dia 4 de junho de 1990, saiu o Ritual "ad interim",
experimental. Foi uma verdadeira surpresa para nós, que nunca tínhamos
sido consultados. Todavia, já fazia tempo que tínhamos preparado alguns
pedidos com relação a uma revisão do Ritual; pedíamos, entre outras
coisas, o retoque das orações, colocando invocações a Nossa Senhora que
faltavam completamente, e o aumento de orações específicas, mas fomos
completamente afastados da possibilidade de dar qualquer contribuição.
Mas não desanimamos porque o texto tinha sido feito para o nosso uso.
Dado que na carta de apresentação o então prefeito da Congregação
para o Culto Divino, o cardeal Eduardo Martínez Somalo, pedia às
conferências episcopais que enviassem num prazo de dois anos "conselhos
e sugestões dadas pelos sacerdotes que o terão usado", pusemo-nos a
trabalhar.
Reuni 18 exorcistas, escolhidos entre os mais experientes do planeta.
Examinamos com grande atenção o texto. Nós o usamos. Elogiamos logo
a primeira parte, na qual eram resumidos os fundamentos evangélicos do
exorcismo, o aspecto bíblico-teológico, no qual naturalmente não
faltava competência, uma parte nova com relação ao Ritual de 1614,
composto por Paulo V. Ademais, naquela época não havia necessidade de
lembrar esses princípios, por todos reconhecidos e aceitos. Hoje,
porém, é indispensável.
Mas quando passamos a examinar a parte prática, que requer um
conhecimento específico do tema, manifestou-se a total inexperiência
dos redatores.
As nossas observações foram copiosas, artigo por artigo, e
fizemo-las chegar a todas as partes interessadas: Congregação para o
Culto Divino, Congregação para a Doutrina da Fé, conferências
episcopais. Uma cópia foi entregue diretamente ao Papa em mãos.
6. Como foram acolhidas as suas observações?
GABRIELE AMORTH: Acolhida péssima, eficácia nula.
Tínhamo-nos inspirado na "Lumen gentium", na qual a Igreja é descrita
como "Povo de Deus". No número 28 fala-se da colaboração dos sacerdotes
com os bispos, no número 37 diz-se com clareza, inclusive com relação
aos leigos, que "segundo a ciência, a competência e o prestígio de que
gozam, têm a faculdade, aliás às vezes também o dever, de manifestar o
seu parecer sobre coisas que concernem ao bem da Igreja". Era
exatamente o nosso caso. Mas nós imaginávamos, ingenuamente, que as
disposições do Vaticano II tivessem chegado às congregações romanas. Ao
contrário, encontramos de frente um muro de rechaço e desprezo. O
secretário da Congregação para o Culto Divino fez um relatório à
comissão cardinalícia na qual dizia que os seus únicos interlocutores
eram os bispos, e não os sacerdotes ou os exorcistas. E acrescentava
textualmente, a propósito da nossa humilde tentativa de ajuda como
peritos que exprimem o seu parecer: "Vemos o fenômeno dum grupo de
exorcistas e supostos demonólogos, esses que logo se constituíram numa
Associação Internacional, que orquestrava uma campanha contra o rito".
Uma acusação indecente: nós jamais orquestramos campanha alguma! O
Ritual era dirigido a nós, e nas comissões não tinham convocado nenhuma
pessoa competente, era mais do que lógico que tentássemos dar a nossa
contribuição.
7. Mas então quer dizer que o novo Ritual é para os senhores imprestável na luta contra o demônio?
GABRIELE AMORTH: Sim. Queriam entregar-nos uma arma com
defeito. Foram canceladas as orações eficazes, orações que tinham doze
séculos de história, e foram criadas outras, ineficazes. Mas felizmente
no último momento tivemos um salva-vidas.
8. Qual?
GABRIELE AMORTH: O novo prefeito da Congregação para o
Culto Divino, o cardeal Jorge Medina, anexou ao Ritual uma notificação,
na qual afirma que os exorcistas não estão obrigados a usar este
Ritual, mas se querem podem usar o antigo com permissão do bispo. Os
bispos devem pedir autorização à Congregação, que no entanto, como
escreve o cardeal, "a concede de boa vontade".
9. "Concede-a de boa vontade"? É uma concessão bem estranha...
GABRIELE AMORTH: Quer saber de onde vem? Duma tentativa
feita pelo cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a
doutrina da Fé, e pelo próprio cardeal Medina para introduzir no Ritual
um artigo - então era o artigo 38 no qual se autorizavam os exorcistas
a usar o Ritual precedente. Sem dúvida tratava-se duma manobra extrema
para evitarmos os grandes erros que há nesse Ritual definitivo. Mas a
tentativa dos dois cardeais foi reprovada.
Então o cardeal Medina, que tinha compreendido o que estava em
jogo, decidiu dar-nos de qualquer forma este salva-vidas, acrescentando
uma notificação em separado.
10. Como são considerados os exorcistas dentro da Igreja?
GABRIELE AMORTH: Somos muito mal tratados. Os irmãos
sacerdotes que são encarregados dessa delicadíssima tarefa são vistos
como doidos, fanáticos. Em geral quase não são tolerados nem pelos
bispos que os nomeiam.
11. Qual o fato mais clamoroso dessa hostilidade?
GABRIELE AMORTH: Tivemos um convênio internacional de exorcistas perto de Roma.
Pedimos para ser recebidos pelo Papa. Para não dar a ele o peso de
somar outra audiência às tantas que já dá, pedimos simplesmente para
ser recebidos na audiência pública das quartas-feiras na Praça de São
Pedro.
Inclusive sem que fosse preciso mencionar-nos nas saudações.
Fizemos o devido pedido, como lembrará perfeitamente Mons. Paolo De
Nicolò, da Prefeitura da Casa Pontifícia, que acolheu de braços abertos
o nosso pedido. Um dia antes da audiência porém o próprio Mons. De
Nicolò disse-nos - na verdade com grande constrangimento, pelo que se
viu muito bem que a decisão não dependia dele - que não viéssemos, não
éramos admitidos. Incrível: 150 exorcistas provenientes dos cinco
continentes, sacerdotes nomeados pelos seus bispos segundo as normas do
direito canônico, que requerem padres de oração, ciência e boa fama -
portanto mais ou menos a fina-flor do clero -, pedem para participar
duma audiência pública do Papa e são enxotados. Mons.
De Nicolò disse-me: "Naturalmente prometo que lhe enviarei logo uma
carta com os motivos". Passaram-se cinco anos, e ainda estou a esperar
essa carta.
Certamente não foi João Paulo II a excluir-nos. Mas que seja
proibido a 150 sacerdotes participar duma audiência pública do Papa na
Praça de São Pedro explica o quanto são dificultados os exorcistas pela
sua Igreja, quanto são mal vistos por tantas autoridades eclesiásticas.
12. O Sr. combate o demônio COTidianamente. Qual é o maior sucesso de Satanás?
GABRIELE AMORTH: Conseguir que não creiam na sua existência.
Quase conseguiu.
Também dentro da Igreja. Temos um clero e um episcopado que já não
crêem no demônio, nos exorcismos, nos males extraordinários que o diabo
pode fazer, e tampouco no poder que Jesus concedeu de expulsar os
demônios.
Há três séculos que a Igreja latina - ao contrario dos orientais e
de várias confissões protestantes - abandonou quase completamente o
ministério dos exorcismos. Sem praticá-los, estudá-los nem vê-los, o
clero já não crê.
Já não crê tampouco no diabo. Temos inteiros episcopados contrários
aos exorcismos. Há nações completamente carentes de exorcistas, como a
Alemanha, a Áustria, a Suíça, a Espanha e Portugal. Uma carência
assustadora.
13. Não citou a França. Lá a situação é diferente?
GABRIELE AMORTH: Há um livro escrito pelo mais conhecido
exorcista francês, Isidoro Froc, intitulado: "Os exorcistas, quem são e
que fazem". O volume, traduzido em italiano pela editora Piemme, foi
escrito por encargo da Conferência Episcopal Francesa. Em todo o livro
jamais se diz que os exorcistas, em certos casos, fazem exorcismos. E o
autor declarou várias vezes à televisão francesa que nunca fez
exorcismos e que nunca os fará.
Entre cem exorcistas franceses só cinco crê no demônio e fazem exorcismos.
Todos os outros mandam quem se dirige a eles ao psiquiatra.
Os bispos são as primeiras vítimas dessa situação da Igreja
Católica, da qual está desaparecendo a crença na existência do demônio.
Antes de sair esse novo Ritual, o episcopado alemão escreveu uma carta
ao cardeal Ratzinger em que afirmava que não era necessário um novo
Ritual, porque já não se devem fazer exorcismos.
14. É dever dos bispos nomear exorcistas?
GABRIELE AMORTH: Sim. Quando um sacerdote é eleito bispo,
encontra-se ante um artigo do Código de Direito Canônico que lhe dá
autoridade absoluta para nomear exorcistas. A um bispo o mínimo que se
pode pedir é que tenha assistido pelo menos a um exorcismo, dado que
deve tomar uma decisão tão importante.
Infelizmente, não acontece quase nunca. Mas se um bispo se encontra
ante uma solicitação séria de exorcismo - ou seja, feita não por um
maluco - e não toma providências, comete pecado mortal. E é responsável
por todos os terríveis sofrimentos daquela pessoa, que às vezes duram
anos ou uma vida, e que teria podido impedir.
15. Está dizendo que a maior parte dos bispos da Igreja católica está em pecado mortal?
GABRIELE AMORTH: Quando eu era pequeno o meu velho pároco
ensinava-me que os sacramentos são oito: o oitavo é a ignorância. E o
oitavo sacramento salva mais que os outros sete juntos. Para cometer
pecado mortal é preciso uma matéria grave mas também o pleno
conhecimento e o deliberado consentimento.
Essa omissão de ajuda por parte de muitos bispos é matéria grave.
Mas esses bispos são ignorantes: não há portanto deliberado
consentimento e pleno conhecimento.
16. Mas a fé permanece intacta, isto é, permanece uma fé católica, se alguém não crê na existência de Satanás?
GABRIELE AMORTH: Não. Conto-lhe um episódio. Quando encontrei pela primeira vez o Padre.
Pellegrino Ernetti, um célebre exorcista que exerceu o ministério
por quarenta anos em Veneza, disse-lhe: "Se eu pudesse falar com o Papa
eu lhe diria que encontro demasiados bispos que não crêem no demônio".
Na tarde seguinte o Pe. Ernetti veio até mim para me dizer que de manhã
tinha sido recebido por João Paulo II. "Santidade", dissera-lhe, "há um
exorcista cá em Roma, Pe. Amorth, que se o visse lhe diria que conhece
demasiados bispos que não crêem no demônio". O Papa respondeu-lhe,
taxativo: "Quem não crê no demônio não crê no Evangelho". Eis a
resposta que ele deu e que eu repito.
17. Ou seja: a conseqüência é que muitos bispos e muitos padres não seriam católicos?
GABRIELE AMORTH: Digamos que não crêem numa verdade evangélica.
Portanto, sendo o caso, eu os acusaria de propagar uma heresia. Mas
fique claro que alguém é formalmente herege se é acusado de alguma
coisa e permanece no erro.
Hoje ninguém, pela situação que há na Igreja, acusa um bispo por
não crer no diabo, nas possessões demoníacas e por não nomear
exorcistas porque não crê.
Contudo, eu poderia dizer-lhe muitíssimos nomes de bispos e
cardeais que logo que foram nomeados para uma diocese tiraram a todos
os exorcistas tal faculdade. Ou bispos que sustentam abertamente: "Eu
não creio nisso.
São coisas do passado". Por quê? Infelizmente porque houve a
influência perniciosíssima de certos biblistas, e poderia citar-lhe
muitos nomes ilustres. Nós que tocamos todos os dias o mundo
sobrenatural sabemos que meteu a colher em tantas reformas litúrgicas.
18. Por exemplo?
GABRIELE AMORTH: O Concílio Vaticano II tinha comandado a revisão de alguns textos.
Desobedecendo a essa ordem, o que se quis foi refazê-los completamente.
Sem pensar que se podiam piorar as coisas em vez de melhorá-las. E
tantos ritos foram piorados por essa mania de querer jogar fora tudo o
que havia no passado e refazer tudo desde o começo, como se a Igreja
tivesse até hoje sempre tapeado e enganado, e só agora tivesse chegado
o tempo dos grandes gênios, dos superteólogos, dos superbiblistas, dos
superliturgistas, que sabem dar à Igreja as coisas certas. Uma mentira.
O último Concílio tinha simplesmente pedido a revisão desses textos,
não a sua destruição.
O Ritual dos exorcismos, por exemplo: era para ser corrigido, não refeito.
Havia orações que têm doze séculos de experiência.
Antes de eliminar orações tão antigas e que por séculos
demonstraram a sua eficácia, seria preciso pensar longamente. Mas não.
Nós, os exorcistas, experimentando o Ritual "ad interim", vimos que são
absolutamente ineficazes.
Também o Ritual do Batismo das crianças foi piorado.
Foi desvirtuado até quase eliminar o exorcismo contra Satanás, que
sempre teve enorme importância para a Igreja, tanto que era chamado
"exorcismo menor".
Contra esse novo rito protestou publicamente também Paulo VI.
Foi piorado o novo Ritual de Bênçãos. Li minuciosamente todas as
suas 1200 páginas. Pois bem, foi cuidadosamente tirada toda referência
ao fato de que o Senhor nos protege de Satanás, que os anjos nos
protegem do assalto do demônio.
Tiraram todas as orações que havia na bênção das casas e das
escolas. Tudo tinha de ser benzido e protegido, mas hoje a proteção
contra o demônio já não existe, já não existem defesas e tampouco
orações contra ele.
O próprio Jesus tinha-nos ensinado uma oração de libertação no
pai-nosso: "Livrai-nos do Maligno. Livrai-nos da pessoa de Satanás". Em
vernáculo foi traduzida de forma errônea, e agora se reza dizendo:
"Livrai-nos do mal". Fala-se dum mal genérico, do qual no fundo não se
sabe a origem. Ao contrário, o mal contra o qual Nosso Senhor Jesus
Cristo tinha-nos ensinado a combater é uma pessoa concreta: é Satanás.
19. O Sr. tem um observatório privilegiado: tem a sensação de que o satanismo esteja difundindo-se?
GABRIELE AMORTH: Sim. Muitíssimo. Quando diminui a fé
aumenta a superstição. Se uso a linguagem bíblica, digo que se abandona
a Deus e se abraça a idolatria; se uso uma linguagem moderna, digo que
se abandona a Deus para abraçar o ocultismo. A diminuição assustadora
da fé em toda a Europa católica faz com que o povo se entregue às mãos
de magos e cartomantes, enquanto as seitas satânicas prosperam. O culto
do demônio é anunciado a massas inteiras através do rock satânico de
personagens como Marilyn Manson, e atacam-se também as crianças quando
jornais e quadrinhos ensinam a magia e o satanismo.
São muito difundidas as sessões espíritas, nas quais se evocam os
mortos para ter respostas. Agora aprende-se a fazer sessões espíritas
com o computador, com o telefone, com a televisão, com o gravador, mas
sobretudo com a escritura automática. Já não há necessidade do medium:
é um espiritismo "self service". Segundo as pesquisas, 37 por cento dos
estudantes fez pelo menos uma vez o jogo do cartaz ou do copo, que é
uma verdadeira sessão espírita. Numa escola em que me convidaram a
falar, os jovens disseram que o faziam durante a aula de religião sob
olhos complacentes do professor.
20. E funcionam?
GABRIELE AMORTH: Não existe diferença entre magia branca e
magia negra. Quando a magia funciona, é sempre obra do demônio. Todas
as formas de ocultismo, como esta grande atração pelas religiões do
Oriente, com as suas tendências esotéricas, são portas abertas para o
demônio. E o diabo entra. Rápido.
Eu não hesitei a dizer imediatamente, no caso da freira assassinada
em Chiavenna e no caso dos dois jovens de Novi Ligure [trata-se de
delitos que chocaram a Itália recentemente, n.d.tr.], que houve uma
intervenção direta do demônio porque esses jovens se dedicavam ao
satanismo. Prosseguindo a investigação a polícia descobriu, em ambos os
casos, que esses jovens seguiam Satanás, tinham livros satânicos.
21. O que aproveita o demônio para seduzir o homem?
GABRIELE AMORTH: Ele tem uma estratégia monótona. Disse
isso a ele, e ele o reconhece... Leva a crer que o inferno não existe,
que o pecado não existe sendo só uma experiência mais a fazer.
Concupiscência, sucesso e poder são as três grandes paixões nas quais
Satanás insiste.
22. Quantos casos de possessão demoníaca encontrou?
GABRIELE AMORTH: Depois dos primeiros cem casos desisti de contar.
23. Cem? Mas são muitíssimos. O Sr. diz nos seus livros que os casos de possessão são raros.
GABRIELE AMORTH: E de fato são. Muitos exorcistas têm
encontrado somente casos de males diabólicos. Mas eu herdei a
"clientela" dum exorcista famoso como o Pe. Candido, e portanto os
casos que ele não tinha resolvido ainda.
Ademais, os outros exorcistas mandam para mim os casos mais resistentes.
24. Qual o caso mais difícil que encontrou?
GABRIELE AMORTH: Estou tratando dele agora, e já faz dois anos.
É a mesma jovem que foi abençoada - não foi um exorcismo
propriamente - pelo Papa em outubro no Vaticano e que causou sensação
nos jornais. É atingida 24 horas por dia, com tormentos indescritíveis.
Os médicos e os psiquiatras não conseguiam entender nada. É plenamente
lúcida e inteligentíssima.
Um caso realmente doloroso.
25. Como a pessoa se torna vítima do demônio?
GABRIELE AMORTH: Pode-se cair nos males extraordinários
enviados pelo demônio por quatro motivos. Ou porque isso consiste num
bem para a pessoa (é o caso de muitos santos), ou pela persistência no
pecado de modo irreversível, ou por um malefício que alguém faz por
meio do demônio, ou por práticas de ocultismo.
26. Durante o exorcismo de possessos, que tipo de fenômenos se manifestam?
GABRIELE AMORTH: Lembro-me dum camponês analfabeto que
durante o exorcismo me falava só em inglês, e eu precisava dum
intérprete. Há quem mostra uma força sobre-humana, quem se eleva
completamente da terra e várias pessoas não conseguem mantê-lo sentado.
Ma é só pelo contexto em que se desenvolvem que falamos de presença
demoníaca.
27. Ao Sr. o demônio nunca fez nada de mal?
GABRIELE AMORTH: Quando o cardeal Poletti me pediu para
ser exorcista encomendei-me a Nossa Senhora. "Envolvei-me no vosso
manto e estarei seguríssimo". O demônio fez-me tantas ameaças, mas
nunca me causou dano algum.
28. O Sr. não tem medo do demônio?
GABRIELE AMORTH -. Eu, medo daquele estúpido? É ele que deve ter medo de mim: eu ajo em nome do Senhor do mundo. E ele é só o macaco de Deus.
29. Padre Amorth, o satanismo difunde-se cada vez mais. O novo
Ritual torna difícil fazer exorcismos. Impede-se aos exorcistas a
participação numa audiência papal na Praça de S. Pedro. Diga-me
sinceramente: o que está acontecendo?
GABRIELE AMORTH: A fumaça de Satanás entra em todas as partes.
Em todas as partes!
Talvez tenhamos sido excluídos da audiência do Papa porque tinham
medo de que tantos exorcistas conseguissem expulsar as legiões de
demônios que se estabeleceram no Vaticano.
30. Está brincando, não?
GABRIELE AMORTH: Pode parecer um modo de dizer, mas creio
que não seja. Não tenho dúvida alguma de que o demônio tenta sobretudo
os postos altos da Igreja, como tenta os postos altos da política e da
indústria.
31. Está dizendo que também aqui, como todas as guerras, Satanás quer conquistar os generais adversários?
GABRIELE AMORTH: É uma estratégia vencedora. Sempre se tenta efetuá-la.
Sobretudo quando as defesas do adversário são fracas. E também
Satanás tenta. Mas ainda bem que existe o Espírito Santo que sustém a
Igreja: "As portas do inferno não prevalecerão". Apesar dos abandonos.
Apesar das traições, que não devem surpreender. O primeiro traidor
foi um dos apóstolos mais próximos a Jesus, Judas Iscariotes. Mas
apesar disso a Igreja continua no seu caminho. Mantém-se em pé pelo
Espírito Santo, portanto toda a luta de Satanás pode ter somente
sucesso parcial. Claro, o demônio pode vencer algumas batalhas.
Inclusive importantes. Mas jamais a guerra.
Fonte: Igrejaonline
|