 Consultor da Congregação do Clero, em
assuntos de catequese, Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, destaca:
"Nós que somos Igreja, temos a missão de resgatar o mundo da morte"
Nesta entrevista, padre Paulo fala sobre o tema deste
novo livro, a escolha da ilustração da capa e fala sobre a busca da
santidade, ensinando aos fiéis como vencer as tentações.
Repórter:Qual o caminho que devemos seguir para que Cristo viva em nós?
Padre Paulo Ricardo:
Deus criou o mundo e Jesus é a razão de ser do universo. É interessante
nos darmos conta disso, porque está escrito: "Jesus é o Verbo, é o
Logus". Logus é o sentido do universo, é a razão de ser de tudo. Deus
criou as árvores, os planetas, o universo inteiro para que tudo seja
levado para Cristo. Os cristãos são um pequeno fermento, uma realidade
minúscula na história do universo que vai mudando toda massa do mundo
inteiro. Então, para sermos Cristo é necessário estarmos muito unidos a
Ele através do batismo, de tal forma que haja uma mudança de sujeito e
nós possamos dizer "Já não sou mais eu quem vivo, é Cristo que vive em
mim" (cf. Gal 2,20).
Repórter: Como buscar a santidade num mundo em que se prega a marginalização?
Padre Paulo:
A santidade, em primeiro lugar, é uma realidade da qual nós não fazemos
muita idéia do que seja. Nós achamos que sabemos o que é a santidade;
pensamos que ser santo é ser um menina ou uma menino bem comportado;
mas não é isso, santidade é algo muito mais profundo. A palavra santo
quer dizer 'cortado', 'separado'. Nós professamos que Deus é santo,
isso quer dizer que Ele é separado do mundo. Pode parecer,
inicialmente, uma má notícia, que o Senhor está tão distante; mas num
mundo caduco, que decai, ter um Deus que está separado de tudo isso é
salvação. O mundo pode passar, mas Deus não passará. Agora, o Senhor
não somente é santo, Ele também santifica, ou seja, nos separa para Ele
e vai, aos poucos, nos trazendo para perto d'Ele. Então, viver uma vida
de santidade com Deus é viver conforme o projeto d'Ele.
Repórter: Como vencer as tentações desse mundo que nos faz escravos?
Padre Paulo:
É interessante notarmos que o pecado escraviza, porque faz com que
escorreguemos na direção do nada. Deus criou o universo e Ele sabe como
este deve ser. O mundo foi plasmado na Palavra de Deus. Já o pecado é
uma palavra que não é de Deus, ou seja, a tentação é uma palavra que
vai nos levando para uma realidade virtual, é um mundo fictício que não
tem consistência real. A tentação em si é uma palavra que tira os pés
da realidade, enquanto a palavra de Deus os crava no chão de uma forma
real, decisiva. Só assim podemos vencer a tentação. Precisamos entender
que a Palavra de Deus nos põe na realidade que Ele criou, na obediência
dela. Por isso que o salário do pecado é a morte, pois, de alguma
forma, "escorregamos" do 'ser' para o 'não ser' e é isso que nos leva
para a morte.
Repórter: Como devemos nos posicionar como testemunhas cristãs diante dessa
cultura de morte que envolve, principalmente, a imoralidade das pessoas?
Padre Paulo: A
cultura de morte é a do pecado, ou seja, Deus criou o homem com uma
finalidade que é a vida com Ele, pois nós, de alguma forma, quando
entramos na vida do pecado, estamos caindo na morte. A pessoa quer ser
feliz de alguma forma, mas está destruindo a si mesma. Isso acontece
muito concretamente, a largos passos. Nós cristãos temos de entender
que somos como as pessoas que estão acordadas durante a noite, enquanto
parece que todos os outros dormem. Você já teve essa sensação, de que o
mundo inteiro está dormindo? Os cristãos são aqueles que vão injetar
vida dentro do mundo impregnado de morte, porque a salvação acontecerá
através deles e da Igreja. Nós temos que crer nisso, porque a Igreja é
o corpo de Cristo. Não é Ele quem salva a humanidade? Pois bem, também
nós que somos Igreja, temos a missão de tirar e resgatar o mundo da
morte. De alguma forma misteriosa isso acontecerá. Essa é a nossa
esperança.
Repórter: Para que público é direcionado o livro "Um olhar que cura"?
Padre Paulo:
O livro é direcionado a um público muito amplo, para aqueles cristãos
que gostariam de crescer na fé e na caminhada. Vocês sabem que a Igreja
está nesse mundo para duas coisas: pescar e pacientar. Às vezes, nós
somos muito bons em pescar pessoas para Cristo, mas chega um certo
ponto em que as pessoas precisam ganhar também forças para enfrentar o
dia-a-dia e crescer. É necessário, então, que elas sejam pacientadas.
Esse livro tem essa finalidade.
Repórter: De que inspiração nasceu o título deste livro?
Padre Paulo:
O título nasceu do ícone do sexto século (capa do livro), no mosteiro
de Santa Catarina de Alexandria no Monte Sinai. Esse ícone é
antiqüíssimo, ele tem dois olhares: um olhar misericordioso e um olhar
desafiador. Muitas pessoas que, por exemplo, quando vão para adoração,
gostam de olhar, fixamente, para o Santíssimo Sacramento no ostensório.
Nós poderíamos dizer que, invés de olhar para o Santíssimo, deixar que
Ele olhe para nós, porque esse é o olhar que, realmente, importa. Que
Deus nos olhe vendo os nossos defeitos e dificuldades com o seu olhar
tristonho, irado, desafiador. Que Ele nos leve à mudança, mas também,
com seu olhar misericordioso, acolhedor e cheio de amor, faça com que
não desanimemos, mas que, verdadeiramente, caminhe e saiba que existe
perdão, misericórdia. A nossa vida espiritual será sempre uma batalha
diante desse olhar, é um único olhar com seus dois aspectos; como uma
moeda que tem dois lados. É um olhar que desafia, abençoe, acolhe e
quer a nossa mudança. É uma forma de amar. Um olhar que nos aceita como
somos. Parece contraditório, mas Deus é assim, porque se Ele coubesse
na nossa cabeça, não mereceria o esse nome.
fonte: cancaonova
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