“Pela sua estrutura íntima, o ato
conjugal, ao mesmo tempo que une profundamente os esposos, torna-os
aptos para a geração de novas vidas, segundo leis inscritas no próprio
ser do homem e da mulher.
Salvaguardando estes dois aspectos
essenciais, unitivo e procriador, o ato conjugal conserva integralmente
o sentido de amor mútuo e verdadeiro e a sua ordenação para a altíssima
vocação do homem para a paternidade”.(Humane Vitae)
Gerar uma nova vida é uma alegria, mas também constante motivo de
preocupação dos pais. Preocupada com os meios artificiais usados pelos
casais na prevenção e programação da gestação, a Igreja recomenda
métodos naturais que utilizam da própria natureza fisiológica do homem
e da mulher para que o casal possa planejar a sua família. No entanto,
os métodos naturais vão muito além da prevenção, eles contribuem para
que a mulher tenha um melhor conhecimento de seu corpo e favorece a
harmonia e o diálogo entre os casais.
Uma forma conhecida de
regulação natural da natalidade é o Método de Ovulação Billings (MOB).
Instrutora desse método há 8 anos, a missionária Fabiana Azambuja, mãe
de 3 filhos (grávida do terceiro) explica as vantagens que essa prática
traz para a mulher e os benefícios dela para a vida harmoniosa do casal.
cancaonova.com: Por que a Igreja Católica recomenda o uso do Método de Ovulação Billings para o planejamento familiar?
Fabiana
Azambuja: Existe um documento que é importante citar quando se fala dos
métodos naturais, que é a Encíclica do Papa Paulo VI, de 1974 (ainda
muito atual), que se chama Humanae Vitae
(em português “Da vida humana”). Nele, o Sumo Pontífice fala sobre a
regulação da natalidade, porque a Igreja vê os casais livres e
responsáveis com a criação. Nesse documento, a Igreja olha o homem de
forma global, não vê a pessoa humana apenas fisiologicamente, mas
também emocional e espiritualmente.
Nessa época, a Igreja
reuniu cientistas, pessoas que entendem dessa área e casais para
analisar a questão da regulação da natalidade. É aí que entra a
história dos métodos naturais, porque eles são o melhor caminho, pois
os casais vão se utilizar da própria fisiologia – sem interferência de
nada artificial – para poder planejar a sua família levando em conta
essa visão global do homem.
Repórter: Por que muitos médicos não o recomendam?
Fabiana:
Sou instrutora do MOB há 8 anos e nós temos um trabalho em conjunto com
os médicos. Apresentamos os casais a eles, explicamos a proposta,
sempre lembrando que o método é uma opção. Então, esses profissionais
trabalham junto conosco, como os endocrinologistas e os nutricionistas,
porque essa questão não é só ginecológica, mas também está ligada à
alimentação e a uma disfunção hormonal. Temos um bom diálogo com alguns
deles.
Quanto a outros médicos, eu acredito que a praticidade
faz com que eles já indiquem o anticoncepcional, porque é muito mais
prático. A questão da saúde pública... tudo isso interfere. Esse é um
ponto. O segundo ponto, não posso esconder, é que existe um lado
comercial. Por mais que seja barato incutir essa cultura contraceptiva,
vai haver um rendimento por trás disso. Já no método natural, você não
gasta nada; é uma proposta bem contracorrente. Alguns [médicos], eu
acredito que fazem isso por falta de conhecimento da prática.
Temos experiências de médicos, com quem começamos a conversar, que
também passaram a ser usuários do método. Na nossa linguagem, dizemos
que é uma “conversão” deles. Atendendo a tantos casais que utilizam
esse método, essa médica também passou a usá-lo.
Repórter: Quais são os principais benefícios do Billings?
Fabiana:
Esse método, primeiramente, faz com que a mulher tenha um
autoconhecimento dela mesma. Ele não faz mal à saúde, não tem efeito
colateral, não tem custo; portanto, serve para todas as classes
sociais, principalmente, para aquelas que não têm poder aquisitivo e
favorece a harmonia do casal.
Repórter: Como as mulheres
que vivem na correria do dia-a-dia podem aderir a ele, tendo em vista
que esse método exige uma maior observação delas com relação ao seu
corpo?
Fabiana: Há um ditado que diz que "A mulher
consegue fazer 10 coisas ao mesmo tempo" e isso é verdade. Nós
conseguimos trabalhar, cuidar dos filhos, do marido, ou seja, ficar
"ligadas". A dificuldade mesmo é exercitar. Para qualquer mulher que
você pergunte, ela pode estar na fila do banco e a menstruação dela
descer; ela vai sentir que isso aconteceu, assim como ela sente que
está com dor nas costas, dor de cabeça... Não é algo que está fora
dela, mas dentro; só que ninguém nunca pergunta para ela: "Como você
está se sentindo hoje?". Então, o trabalho da instrutora é, justamente,
dar esse "clique" nela para que ela comece a se observar. Não é uma
coisa de outro mundo; simplesmente ela nunca fez isso. Para saber que
ela está menstruada, ninguém precisou dizer. A fertilidade é assim
também, ela vai sentir, mas não está acostumada a se perguntar e a se
sentir. É aí que entra o trabalho da instrução.
Repórter: Ele deve ser utilizado apenas pelos casais já casados?
Fabiana:
Na verdade, ele é utilizado desde a menarca – primeira menstruação –,
até a pré-menopausa, quando a mulher fecha o seu ciclo de vida fértil.
Mas a utilização dele é diferenciada, porque uma adolescente vai usá-lo
para adquirir um autoconhecimento.
É muito bacana, porque os
adolescentes ainda estão regulando os seus hormônios e, nessa fase,
muitos pais erram, porque levam as filhas ao ginecologista e já há uma
medicação para regular o ciclo. É um pecado isso, porque a adolescente
ainda está em fase de ajuste. Então, quando ela começa a se observar,
descobre a beleza do seu corpo, valoriza-se como mulher e essa
valorização do corpo vai ser muito importante. Isso vai ajudá-la a ser
melhor com as pessoas, a saber que, algumas vezes, o hormônio pode
influenciar no humor, seja porque ela fica uma chata ou muito alegre,
sensível. Enfim, isso ajuda também na vivência social dela.
Uma vez casado, dentro do matrimônio, o casal vai utilizar as regras para engravidar ou para espaçar a gravidez.
Repórter: Qual deve ser o comportamento do casal durante o período fértil?
Fabiana:
Uma das vantagens do Método Billings é o diálogo entre os casais, a
harmonia. O casal vive um eterno enamoramento; é muito interessante. O
sexo é muito importante na vida matrimonial evidentemente, mas ele é
uma parte. Assim, quando alguns homens entendem a proposta, eles são os
primeiros que a abraçam. Mas quando não a entendem, eles têm uma
verdadeira aversão, porque existe aquela mentalidade de que sexo é todo
dia, toda hora e "quanto mais, melhor"; "quanto mais, mais eu sou
macho". Quando eles entendem a proposta, vivem uma reeducação sexual;
vivem o sexo como uma entrega, uma doação a quem se ama. Dentro do
casamento, você vive uma lua-de-mel, porque existem os dias férteis em
que o casal quer espaçar, então não vai ter relação nesses dias, que é
de 6 a 8 dias. Então, num ciclo de 28, 30 [dias], você tem cerca de 16
dias para ter relação. Aí, o casal vive um enamoramento. O que eles vão
fazer? Vão conversar, vão namorar, ir ao cinema, jantar fora. O casal
não fica na rotina e descobre que existem outras manifestações de amor
além da sexual, da genital. O comportamento do casal deve ser o de se
amar de outras formas e de forma responsável, já que eles não querem
engravidar naquele momento.
Repórter: Para que esse método funcione é importante a participação do marido?
Fabiana:
É importante que ele queira viver essa experiência, porque, na verdade,
quem se observa é a mulher. O marido é uma “ajuda adequada” (cf.
Gênesis 2,18). Há casos em que a mulher esquece de anotar [o ciclo], e
quem anota é o marido à noite. Eles vão ter que conversar sobre esse
assunto. Toda mulher quer, no final do dia, que o marido pergunte:
“Como foi o seu dia?”. Nós achamos isso o máximo, mas para eles isso
não faz a menor diferença. No entanto, para a relação sexual ele vai
ter de perguntar. Olha que notícia maravilhosa! E ela vai responder:
"Hoje eu estou seca, hoje eu estou molhada; ou seja, hoje estou fértil
ou infértil". Os homens aprendem muito rápido, mas precisam aceitar.
Isso é o legal, porque, os outros métodos artificiais colocam o jugo
sobre um ou sobre outro. "Se é a mulher quem está tomando um
anticoncepcional, ela que se vire". E fica uma coisa fria, pois eles
têm relação na hora em que querem. Se é o homem quem faz vasectomia,
está sobre ele [o jugo]. Não é fácil tomar a decisão de não mais
procriar, porque isso é algo que está intrínseco ao homem e à mulher.
Eles foram criados para colaborar com Deus na criação. Já o método
natural é do casal.
Repórter: Durante a amamentação, a mulher deve continuar utilizando-o?
Fabiana:
Exatamente. Na amamentação, geralmente, a mulher acabou de ter um filho
e o casal quer espaçar a próxima gravidez; outros não, querem ter um
atrás do outro. Mas para o casal que quer esperar alguns anos para
engravidar de novo, ela [esposa] vai continuar usando o método como
usava antes de engravidar.
Repórter: Como orientar a população mais carente em relação a esse planejamento
natural tendo em vista que ela têm menor acesso às informações?
Fabiana:
O planejamento natural da família precisa ser mais divulgado, porque
ele é eficaz em todas as camadas da sociedade. Existem, inclusive,
mulheres analfabetas que praticam o método. Elas não precisam saber ler
para fazê-lo, apenas se observar e pintar as cores [do quadro].
Atendi um casal e a mulher me disse que sabia como estava, então ela
pegava uma folha seca para ilustrar quando estava infértil e, quando
não punha nada, é porque ela estava fértil. É muito simples o método,
mas é preciso que ele seja divulgado pelos meios de comunicação e
precisam existir cada vez mais órgãos como o CENPLAFAN (Centro de
Planejamento Familiar Natural), que é responsável por esse trabalho no
Brasil. É preciso gerenciar mais instrutores capacitados para ajudar as
pessoas; utilizando também os Postos de Saúde para que essa proposta
chegue até elas.
Repórter: Como você aprendeu a usar o Método Billings e como se tornou instrutora dele?
Fabiana:
Eu tive uma "conversão" com o método, porque eu tinha 23 anos quando
comecei a namorar o meu esposo. Ele já conhecia o método e falou dele
para mim. A princípio eu pensei: "Nossa, mas tem que planejar?". Na
minha cabeça, eu não tinha que planejar, porque ia ter quantos filhos
Deus me desse. Então, havia um pouco de resistência no meu coração. Mas
uma pessoa da comunidade [Canção Nova] foi fazer um curso para
instrutores em Araras (SP), em 1998, e me chamou. Lá fui eu, mas para
questionar tudo. Na sexta-feira em que eu cheguei ao encontro, tive uma
cura espiritual, porque a minha mãe foi mãe solteira. Então, eu não fui
planejada pelos meus pais. Quando eu cheguei lá [no encontro], não
conseguia dormir e pedi para essa pessoa que foi comigo rezar por mim.
Na oração veio essa questão do meu pai e da minha mãe com relação à
minha gestação. O ponto que foi nevrálgico na minha aceitação ao método
foi a responsabilidade, porque, como não houve responsabilidade deles
[os pais], eu não queria planejar. A partir disso, eu fui a todas as
palestras, entendi a proposta do método e comecei a trabalhá-lo na
Canção Nova; primeiramente comigo, fazendo o autoconhecimento da minha
fertilidade e também participando de outros cursos.
Fonte: cancaonova
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