 No nordeste brasileiro, as festas juninas têm um lugar especial, por sua raiz
religiosa, enquanto estão ligadas ao calendário santoral da Igreja que cultua a
memória de Santo Antônio, São João e São Pedro, considerados, realmente, “santos
do povo”.
Ao apresentá-los à veneração dos fiéis, a Igreja os propõe como exemplos de vida
a serem imitados. Assim, na memória de Santo Antônio, no dia 13 de junho, a
Igreja o invoca como “intercessor em todas as necessidades”, a exemplo das moças
que pedem sua intercessão, em vista de seu projeto de casamento. No dia 24,
festa do nascimento de São João Batista, que trouxe muitas “alegrias
espirituais”, a Igreja o recorda como aquele que veio “preparar para o Senhor um
povo perfeito”. Na memória de São Pedro e São Paulo, no dia 29, a Igreja pede a
Deus que os fiéis possam “seguir em tudo os ensinamentos destes Apóstolos que
nos deram as primícias da fé.” A celebração da memória destes santos, portanto,
sempre teve um sentido religioso; esse, na verdade, foi o legado das gerações
passadas: o momento da oração precede o folguedo e o lado cultural favorece a
confraternização do povo.
Hoje, acentua-se o aspecto cultural da comemoração, porém, evidenciam-se
desvirtuações notórias no campo da música e da dança que chamam a atenção de
pessoas e instituições interessadas na preservação da tradição. É preciso estar
atento a essa mudança, efeito do fenômeno da globalização, que repercute na vida
de indivíduos e incide no comportamento coletivo, de modo muito visível. Os
grandes centros e as comunidades interioranas se deparam com esse quadro. Por
isso, as bandas consagradas pela mídia abafam os grupos tradicionais, os
cantores renomados tomam o lugar das autênticas vozes regionais, o saldo
bancário dos artistas visitantes fica logo recheado, enquanto o cachê dos
talentos domésticos fica à mercê da programação do caixa da Prefeitura.
A Igreja reconhece a importância das festas populares que, quando
patrocinadas ou apoiadas pelos poderes públicos, não podem ser transformadas em
“pão e circo” para o povo, como nos tempos imperiais romanos. Por sinal, a
instrumentalização das festas populares é uma prática generalizada entre os
políticos, sempre em busca de dividendos eleitoreiros.
Dom Genival
Saraiva
Bispo de Palmares - PE
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