Nos
EUA, uma das “explicações” mais controversas veio de um pastor
protestante, que sustenta que o Haiti teria sido “amaldiçoado” no
momento em que seus fundadores teriam “firmado um pacto com o demônio”
para obter a independência da França. Tais comentários, como se pode
imaginar, suscitaram uma enorme controvérsia.
No Antigo
Testamento há muitos relatos de nações punidas por Deus por pecados
como a idolatria e a injustiça, e alguns cristãos continuam a recorrer
a estas histórias para explicar eventos mundiais.
Os católicos de
hoje, porém, olham numa direção diferente quando buscam compreender
como Deus lida com nossa condição de pecadores. Seu olhar não precisa
ir além do crucifixo sobre o altar de suas igrejas. Deus ligou-se livre
e amavelmente ao sofrimento humano com o sacrifício de Seu Filho na
cruz.
Estes evangélicos que citam com tanta freqüência João 3:16
deveriam também lembrar do que diz o versículo seguinte: “Pois Deus
enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o
mundo seja salvo por ele”.
A tragédia no Haiti deixará,
provavelmente, efeitos de longo prazo, não apenas para aqueles que
perderam seus entes queridos, mas para toda uma geração que testemunhou
tamanha destruição. É importante que compreendamos o significado
profundo do que ocorreu no Haiti.
Muitos informes têm comparado
os eventos no Haiti à recente devastação provocada pelo furacão Katrina
nos EUA, ou com o terremoto ocorrido na Cidade do México em 1985. Mas a
tragédia do Haiti tem probabilidade de provocar um impacto psicológico
de longo prazo, tal qual o terremoto ocorrido em Lisboa em 1775. Este
último foi seguido de um tsunami e de um grande incêndio que se
alastrou por toda a cidade, matando um milhão de pessoas.
A
catástrofe ocorrida em Lisboa mudou a forma de pensar de muitos
intelectuais influentes do século 18, incluindo Voltaire, Kant e
Descartes. O terremoto ocorreu durante a Festa de Todos os Santos num
país de maioria católica, o que fez com que muitos cristãos europeus
colocassem em dúvida sua própria fé em Deus.
Nos próximos dias, é
possível que sejamos testemunhas de um processo similar. Por isso, o
Haiti representa hoje um teste para nossa fé e nosso comprometimento
com nossos irmãos.
Pensando no Haiti ao longo dessa semana, não
pude deixar também de pensar na obra do padre Damião de Molokai, “o
apóstolo dos leprosos”, recentemente canonizado por Bento XVI. Há
muitos anos, tive a oportunidade de visitar Molokai, no Havaí, e
enquanto visitava a paróquia, vi a fotografia de uma anciã tirada nos
anos 30. Havia perdido as orelhas, o nariz, os dedos dos pés e das mãos
com a lepra. Estava também cega. Mesmo assim, todos os dias, recitava o
rosário segurando-o entre os dentes.
Não muito tempo depois, eu
falava com um sacerdote missionário que havia aberto um abrigo para
doentes de lepra. Todos os dias, enquanto celebrava a missa, um ancião,
também cego devido à doença, dizia durante a oração dos fiéis: “Deus
Pai, te agardeço por todas as coisas boas que me concedeu”.
Os
filósofos e teólogos continuarão a buscar explicações na tentativa de
responder às nossas indagações sobre o sofrimento no mundo. Mas a
melhor resposta, no entanto, vem daqueles cujo sofrimento vai além do
que somos capazes de imaginar, e ainda assim, são capazes de viver a
realidade de que Deus uniu-se a eles em seu sofrimento.
Na
homilia pronunciada na missa de canonização de padre Damião, o Papa
disse que “Jesus convida seus discípulos a doarem totalmente suas
vidas, sem ponderações ou ganhos pessoais, com confiança irrestrita em
Deus. Os santos atendem a esse chamado, e se colocam com doce
humildade, a seguir Jesus crucificado e assunto aos céus”.
“Sua
perfeição, numa lógica de fé que às vezes pode parecer incompreensível,
consiste em não colocar mais a si mesmos no centro, mas em optar por
andar contra a correnteza, vivendo segundo o Evangelho”.
Esta é a chave para compreender os eventos de Molokai e do Haiti. E será esta a medida de nossa resposta como cristãos.
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*Carl Anderson é escritor e cavaleiro supremo da Ordem dos Cavaleiros de Colombo.