A linguaguem poética de nossos presépios, ofuscam o "brilho" do sofrimento da chegada de Jesus. "Apenas restou o majendoura", ouvimos isto na homilias, nos textos natalinos, mas passa despercebido o que é realmente uma manjedoura.
Do italiano
mangiatoia, a manjedoura é o local (douro) da comida (manjar), lugar onde se alimentam os animais. Para nós cristãos, o lugar para onde colocamos o nosso Deus. Nossa Tradição diz que José colocou palhas secas para acomodar o Filho, mas imagine quantas bactérias existiam naquele lugar. Um lugar fedido, podre, sem nenhuma higiene, nem água quente tinha... Como era grande o risco de uma infecção no Filho de Deus. Qual mãe estaria feliz ou plenamente satisfeita de ter "dado a luz", em um lugar imundo, sem segurança ou conforto.
"Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado, consubstancial ao Pai" vai professar a nossa fé, no texto do Credo Niceno-Constatinopolitano. Ou seja, Deus o Todo-Poderoso, de condição divina
"não se prevaleceu de sua igualdade com Deus" (Fl 2,6) para extrair de sua vida terrestre a condição humana do sofrimento. Realmente nós não somos como Deus pois queremos - como num passe de mágica - retirar a dor e o sofrer de nossas vidas.
Já Maria - a Mãe, deveria estar estressada, por já tinha havido todos aqueles problemas na gestação, e nem agora, quando iria dar a luz, poderia ter a tranquilidade de "parir" seu Filho em casa com uma parteira. Será que Deus esqueceu dela??? Acho que poderíamos ter perguntado assim. Não! Claro que não! Maria fez como nós deveríamos sempre fazer: compreender que a Graça prometida - por Deus - é maior que o sofrimento do momento, mesmo que esse sofrimente durasse um bom tempo, ou os nove meses de sua gestação. E ela ainda nem imagina como seu Filho iria morrer...
E ainda os anjos, com aqueles "vozesinhas" cantavam "
Gloria in excelsis Deo…e paz na Terra aos homens por Ele amados”. Quem poderá glorificar a Deus numa agonia dessas: o menino recém-nascido num tem nem onde ficar. Se fôssemos nós, olharíamos para os anjos e diríamos: "Cala a boca! Deixa de barulho! Uma agonia dessa e o menino num pode nem dormir em paz, com essa música!" Maria cantou com os anjos.
O sofrimento é natural a condição humana, está condito e deverá ser concebido de uma maneira nova pelo "jeito cristão" de viver. Por isso é que não acredito em "religiões" que dizem alcançar a vida plena, tendo nesta vida buscado constatemente tirar o sofrimento. Ele deve ser compreendido com outros olhares. Quando não entendemos o sofrimento poderemos fazer como Santa Teresa Dávilla! Nossa Santa Tereza chegou a perguntar para Deus:
por que razão passava por tais sofrimentos e Deus respondeu: trato
meus amigos assim e ela retrucou: "por isso tem poucos amigos". É mais ou menos por aí...
Cabe a nós fazer neste Natal a diferença: retirar os "enfeites" e "beber" a essência da celebração: um Deus que não mede esforços, nem condições para estar junto do Seu povo e lhes salvar!
Um Santo Natal!