 O Poder
Temporal que a Santa Sé exerce no Estado da Cidade do Vaticano, sua
administração e a guarda do Depósito da Fé tão recomendado por São Paulo,
escapam aos nossos olhos.
E tal poder é bem distante de sua origem modesta,
haja visto, que a Basílica de São Pedro foi construída sobre um terreno onde
antes era um cemitério. Por quase dois mil anos sua história cativou a
imaginação de milhões. Do Vaticano, uma fé cresceu para dominar o mundo
ocidental. Cruzadas foram lançadas, inquisições foram convocadas. Sem falar de
que se trata de um acúmulo de construções arquitetônicas e arte... Muita
arte!!! Estampada desde a Capela Sistina até os corredores das Basílicas bem
como nos arredores da praça de São Pedro. Eis a menor nação soberana e ainda
assim uma das mais poderosas. Seu líder? O único monarca absoluto na Europa,
mas um homem que foi eleito por seus irmãos, também pastores. Um homem que carrega
um dos mais pesados fardos para um líder: O cuidado espiritual de mais de um
bilhão de pessoas. É o cargo de Poder de uma das mais antigas organizações do
planeta.
É no Vaticano
onde santos são proclamados. Onde os papas pontificam. Onde quase toda a
história ocidental se acha inscrita. Trata-se de uma invenção humana divinamente
inspirada. Apesar de ser um dos locais mais conhecidos do mundo, é o menos
entendido. De fora parece impenetrável. Suas paredes centenárias, a imponente
colunata de Bernini que circunda a Basílica de São Pedro, bem como toda a
estrutura arquitetônica dão ao Estado Pontifício este caráter misterioso, tal
como é a revelação: envolta em Mistério. Como a maior parte do Vaticano é
fechada ao público, poucos poderão ir além da Praça de São Pedro, ou da maciça
Basílica, logo atrás. Mas é apenas dentro do Vaticano, que a sua idéia adquire
vida. Dentro das construções, ao longo de corredores e afrescos, em sacristias,
na morada dos guardas e em oficinas, encontram-se as pessoas e ouvem-se as
histórias que dão a este lugar poderoso a sua alma.
A economia do
Vaticano é baseada na captação de donativos das comunidades eclesiais (igrejas)
pertencentes à Igreja Católica, Apostólica e Romana no mundo inteiro. Essa
arrecadação supre fundos para as despesas do Vaticano com a evangelização e os
programas sociais que desenvolve, igualmente em todo o mundo. O país mantém um
canal de donativos conhecido como “Óbulo de São Pedro”, no qual o doador remete
os fundos diretamente ao Vaticano. Outra forma de captação de recursos é com o
turismo no complexo dos “Museus Vaticanos”. Não há outro lugar no mundo com
tanto valor artístico e intelectual concentrado como no Arquivo Secreto do
Vaticano, na Biblioteca Apostólica Vaticana, e nos acervos de arte (pintura,
escultura e arte sacra) das igrejas romanas.
A vida nesta
cidade-estado não é tão comum como em outras nações. Não existe um dia comum,
haja visto que o Vaticano sustenta um tesouro incalculável, medido, não em
euros ou dólares, mas em
almas. As almas que foram confiadas um dia a Pedro, que se
eternizou pela história na pessoa do Papa. Este trabalho exercido ali é tão
variado como a história de 2000 anos do próprio local. Sem falar na rotina de
quem vive em um lugar assim, no berço do Catolicismo. Pode-se observar no
quartel, dentro dos muros do Vaticano, novos recrutas do menor exército do
mundo que são passados em revista: é a guarda suíça, e nos últimos 500 anos
foram os guarda-costas do papa. São apenas 100, e para se qualificarem devem
ser suíços, católicos e devem ter no mínimo 1,73 m de altura. Hoje, usam
equipamentos de tecnologia de ponta. A guarda-suíça tem um papel cerimonial,
mas também é uma força de segurança treinada, que controla inclusive quem entra
ou sai do Vaticano, em cerimoniais importantes. Jovens suíços que sonham um dia
apresentarem-se diante do Papa para prestar-lhe o tão desejado juramento de
dedicar sua vida pelo Pontífice.
O Vaticano é o
menor estado soberano do mundo, medindo apenas 0,44 km quadrados. É
protegido por muros centenários e inteiramente cercado pela cidade de Roma. Mas
é uma nação separada formada em 1929 em um tratado com o governo italiano: o
famoso Tratado de Latrão. Esta independência é o aspecto secular mais
importante do Vaticano, pois protege o papa de interferência externa. E aqui
vale salientar o Cânon nº 1271 do Código de Direito Canônico, como sendo essencial, por
se tratar de uma norma canônica providencial e assistencial que permite à
Igreja e ao Papa serem completamente livres e autônomos em relação aos
poderosos do mundo. Afinal, os ricos dão alguma coisa porque esperam sempre
obter outra e a Igreja não pode estar condicionada a interesses particulares,
devendo ser independente, pois só assim pode cumprir a sua missão apostólica.
Apesar
de sua população minúscula de 900 habitantes, o Vaticano tem tudo que uma nação
normal teria: uma força policial, um jornal, um correio, e até uma cozinha para
os pobres. Até mesmo possui uma espécie de governador: Hoje, é o cardeal
Giovanni Lajolo, que é o presidente da Comissão Pontifícia que supervisiona a
cidade-estado. “Aqui fazemos coisas que
qualquer empresa ou país faria, mas somos diferentes, pois o que fazemos aqui
visa auxiliar o papa, atender o Santo Padre em sua missão espiritual... sua
missão espiritual mundial”, afirmou o cardeal. Pela natureza singular do
Vaticano, vê-se que há alguns aspectos atípicos nesta cidade. Por exemplo, o
congestionamento pode chegar até 10 carros. E o Vaticano é talvez o único país
onde o caixa automático fornece instruções em latim.
Podemos
avaliar em 174 as nações que mantém relações diplomáticas com o Vaticano.
Líderes mundiais se reúnem ali, não pela economia emergente ou possíveis
benefícios comerciais. Eles vêm porque querem contato pessoal com o papa, o
líder espiritual de mais de 1 bilhão de católicos do mundo todo. Até porque,
muitos papas como João Paulo II, por exemplo, tiveram uma influência política
impactante.
Pois é!!! Em
face ao Tratado de Latrão, a Santa Sé conseguiu que fossem isentos de impostos
alguns bens como as basílicas patriarcais de São João de Latrão, Santa Maria
Maior e de São Paulo fora dos Muros, o Edifício de São Calisto, a residência
pontifícia de Castel Gandolfo, dentre tantos outros bens, sendo necessário
recordar que o Vaticano tem representação diplomática na maioria dos países do
mundo e isto tem evidentemente um custo. Daí a necessidade de recursos mínimos
para manter a Igreja funcionando. Na realidade, estes recursos são quase nada
se comparado aos estados papais que a Igreja detinha, o correspondente a uma
boa parcela da Itália. Engraçado que a Igreja perde em poder temporal, porque
os seus bens se resumem a um território menor que a República de São Marinho (60,57 Km quadrados), porém
ganha em poder espiritual uma vez que nessa época por ocasião do Concílio
Vaticano I, foi proclamado o Dogma da Infalibilidade Papal. O papa ganhara
autonomia espiritual e estava prestes a ganhar por ocasião do processo de
unificação da Itália, autonomia temporal, independente de qualquer regime de
governo. Providência de Deus!
Ah! E os
processos de santidade. Anos de estudos acerca da vida, do testemunho, da moral
de tantos bem aventurados, “candidatos a santos”, se assim podemos dizer.
Estudos exaustivos, que podem durar décadas. Mas nos assuntos de fé qualquer
urgência, é moderada pelo conhecimento de que, no Vaticano, se mede o tempo por
século, e não por década. Um longo e detalhado acervo destes séculos preenche
quase 48 quilômetros
de prateleiras em uma das mais singulares instituições do Vaticano: os arquivos
secretos, que contém inúmeros documentos essenciais da história ocidental. Mais
de 1000 anos de memória. Documentos tão antigos que correm o risco de
desaparecer. Aí entram em ação os restauradores, para que não se percam tais
relíquias, pois uma instituição sem memória, é uma instituição sem futuro.
Neste laboratório, tais conservadores estão em uma corrida contra o tempo, para
restaurar as cartas escritas à mão por Michelangelo, ou os documentos
relacionados ao julgamento de Galileu Galilei, e até mesmo uma petição de Henrique
VIII pedindo que fosse declarada a nulidade de seu casamento com Catarina de
Aragão. Pedido este negado, o que deixou este rei da Inglaterra enfurecido, de
modo que acabou por separar-se da Igreja de Roma e declarar-se chefe de sua própria igreja na Inglaterra. Se não
fosse pelos esforços de conservação e pela campanha de digitalização, muito da
memória de 1000 anos do mundo poderia ser perdida para sempre.
É claro que
mediante o poder temporal do qual dispõe o papa, houve muitos abusos por parte
dos filhos da Igreja. Abusos realizados por exemplo por Alexandre VI, ou Júlio
II, Leão X, mas também houve muitos papas da renascença que deram grandes
contribuições sem o detrimento da moral. Um deles, Gregório XIII fez uma
mudança que nos afeta até hoje. Ele alterou o tempo, modificando o calendário,
o famoso calendário gregoriano que nós seguimos. E sem falar na história fascinante dos
conclaves, na eleição do novo pontífice, onde tecnicamente qualquer católico,
até leigo, pode ser eleito, porém historicamente os candidatos são cardeais. A
forma de se chegar a uma decisão no conclave, permanece em segredo. A eleição
acontece apenas na capela Sistina em meio a uma mistura de devoção espiritual e
objetividade, onde os cardeais devem decidir o que determinará o curso da
Igreja. E o homem que for o escolhido deve ser formidável para que o candidato
veja que os eleitores convergem para o seu nome, até que se perceba quem obteve
a maioria de 2/3 dos votos. Deve ser um momento apavorante.
Enfim!!! Um
dos encantos do Vaticano é que muitas coisas diferentes, muitos eventos, fatos
que mexem com a história política, social, cultural e econômica do mundo
inteiro, podem acontecer ao mesmo tempo em um lugar tão pequeno. Enquanto
ocorre ordenação de bispos em
uma Basílica, em outro local acontece a cerimônia de
canonização de novos santos, restaurações de obras de arte ou da biblioteca
vaticana vão acontecendo simultaneamente, o papa se prepara para mais uma
viagem internacional, ou recebe algum outro chefe de Estado. A vida no Vaticano
é um circulo infinito de eventos espirituais e seculares, monumentais e
mundanos. Onde se trabalha uma linguagem sutil e escorregadia de modo que por
vezes não se consegue aprender numa vida. É bom entender que a administração do
Estado Pontifício não se fundamenta em lidar somente com números, ou com um saldo
positivo de oito milhões, quinhentos e
dezesseis mil dólares ao ano por exemplo, nem consiste apenas nas preocupações
geradas com a quebra e o escândalo do Banco Ambrosiano, em 1982. E muito menos
se prende às instituições das comunicações sociais ligadas à Santa Sé como a
Rádio Vaticano e o L’Osservatore Romano. Mas sobretudo, mais do que administrar
dólares, ou euros (a moeda oficial do Vaticano e de toda a Europa), a Santa Sé
administra a Doutrina, é responsável por aquilo que nós devemos acreditar, a
grande administradora dos tesouros de Deus, o permanente instrumento usado para
a salvação da Humanidade, a ponto do Concílio Vaticano II chamá-la de
“Sacramento universal da Salvação”. E ainda nada foi mencionado aqui
sobre a história da caridade católica que mudou o mundo. Como grandes
personalidades do tipo Francisco de Assis, Basílio, Pe. Pio de Pietrelcina,
Tereza de Calcutá, Vicente de Paulo, João Paulo II, tornaram-se verdadeiros
“super-heróis” da fé e da caridade administrando milhões sem desvalorizar o voto de Pobreza tão necessário para a maturidade espiritual. Mas isso já é outro assunto, que fica para um outro momento.
Até breve, caríssimos.
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