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Uma pequena nação – Uma grande Missão PDF Imprimir E-mail

500_bxk63647_vista-parcial-de-roma-.jpgO Poder Temporal que a Santa Sé exerce no Estado da Cidade do Vaticano, sua administração e a guarda do Depósito da Fé tão recomendado por São Paulo, escapam aos nossos olhos.

E tal poder é bem distante de sua origem modesta, haja visto, que a Basílica de São Pedro foi construída sobre um terreno onde antes era um cemitério. Por quase dois mil anos sua história cativou a imaginação de milhões. Do Vaticano, uma fé cresceu para dominar o mundo ocidental. Cruzadas foram lançadas, inquisições foram convocadas. Sem falar de que se trata de um acúmulo de construções arquitetônicas e arte... Muita arte!!! Estampada desde a Capela Sistina até os corredores das Basílicas bem como nos arredores da praça de São Pedro. Eis a menor nação soberana e ainda assim uma das mais poderosas. Seu líder? O único monarca absoluto na Europa, mas um homem que foi eleito por seus irmãos, também pastores. Um homem que carrega um dos mais pesados fardos para um líder: O cuidado espiritual de mais de um bilhão de pessoas. É o cargo de Poder de uma das mais antigas organizações do planeta.

É no Vaticano onde santos são proclamados. Onde os papas pontificam. Onde quase toda a história ocidental se acha inscrita. Trata-se de uma invenção humana divinamente inspirada. Apesar de ser um dos locais mais conhecidos do mundo, é o menos entendido. De fora parece impenetrável. Suas paredes centenárias, a imponente colunata de Bernini que circunda a Basílica de São Pedro, bem como toda a estrutura arquitetônica dão ao Estado Pontifício este caráter misterioso, tal como é a revelação: envolta em Mistério. Como a maior parte do Vaticano é fechada ao público, poucos poderão ir além da Praça de São Pedro, ou da maciça Basílica, logo atrás. Mas é apenas dentro do Vaticano, que a sua idéia adquire vida. Dentro das construções, ao longo de corredores e afrescos, em sacristias, na morada dos guardas e em oficinas, encontram-se as pessoas e ouvem-se as histórias que dão a este lugar poderoso a sua alma.

A economia do Vaticano é baseada na captação de donativos das comunidades eclesiais (igrejas) pertencentes à Igreja Católica, Apostólica e Romana no mundo inteiro. Essa arrecadação supre fundos para as despesas do Vaticano com a evangelização e os programas sociais que desenvolve, igualmente em todo o mundo. O país mantém um canal de donativos conhecido como “Óbulo de São Pedro”, no qual o doador remete os fundos diretamente ao Vaticano. Outra forma de captação de recursos é com o turismo no complexo dos “Museus Vaticanos”. Não há outro lugar no mundo com tanto valor artístico e intelectual concentrado como no Arquivo Secreto do Vaticano, na Biblioteca Apostólica Vaticana, e nos acervos de arte (pintura, escultura e arte sacra) das igrejas romanas.

A vida nesta cidade-estado não é tão comum como em outras nações. Não existe um dia comum, haja visto que o Vaticano sustenta um tesouro incalculável, medido, não em euros ou dólares, mas em almas. As almas que foram confiadas um dia a Pedro, que se eternizou pela história na pessoa do Papa. Este trabalho exercido ali é tão variado como a história de 2000 anos do próprio local. Sem falar na rotina de quem vive em um lugar assim, no berço do Catolicismo. Pode-se observar no quartel, dentro dos muros do Vaticano, novos recrutas do menor exército do mundo que são passados em revista: é a guarda suíça, e nos últimos 500 anos foram os guarda-costas do papa. São apenas 100, e para se qualificarem devem ser suíços, católicos e devem ter no mínimo 1,73 m de altura. Hoje, usam equipamentos de tecnologia de ponta. A guarda-suíça tem um papel cerimonial, mas também é uma força de segurança treinada, que controla inclusive quem entra ou sai do Vaticano, em cerimoniais importantes. Jovens suíços que sonham um dia apresentarem-se diante do Papa para prestar-lhe o tão desejado juramento de dedicar sua vida pelo Pontífice.

O Vaticano é o menor estado soberano do mundo, medindo apenas 0,44 km quadrados. É protegido por muros centenários e inteiramente cercado pela cidade de Roma. Mas é uma nação separada formada em 1929 em um tratado com o governo italiano: o famoso Tratado de Latrão. Esta independência é o aspecto secular mais importante do Vaticano, pois protege o papa de interferência externa. E aqui vale salientar o Cânon nº 1271 do Código de Direito Canônico, como sendo essencial, por se tratar de uma norma canônica providencial e assistencial que permite à Igreja e ao Papa serem completamente livres e autônomos em relação aos poderosos do mundo. Afinal, os ricos dão alguma coisa porque esperam sempre obter outra e a Igreja não pode estar condicionada a interesses particulares, devendo ser independente, pois só assim pode cumprir a sua missão apostólica.

  Apesar de sua população minúscula de 900 habitantes, o Vaticano tem tudo que uma nação normal teria: uma força policial, um jornal, um correio, e até uma cozinha para os pobres. Até mesmo possui uma espécie de governador: Hoje, é o cardeal Giovanni Lajolo, que é o presidente da Comissão Pontifícia que supervisiona a cidade-estado. “Aqui fazemos coisas que qualquer empresa ou país faria, mas somos diferentes, pois o que fazemos aqui visa auxiliar o papa, atender o Santo Padre em sua missão espiritual... sua missão espiritual mundial”, afirmou o cardeal. Pela natureza singular do Vaticano, vê-se que há alguns aspectos atípicos nesta cidade. Por exemplo, o congestionamento pode chegar até 10 carros. E o Vaticano é talvez o único país onde o caixa automático fornece instruções em latim.

Podemos avaliar em 174 as nações que mantém relações diplomáticas com o Vaticano. Líderes mundiais se reúnem ali, não pela economia emergente ou possíveis benefícios comerciais. Eles vêm porque querem contato pessoal com o papa, o líder espiritual de mais de 1 bilhão de católicos do mundo todo. Até porque, muitos papas como João Paulo II, por exemplo, tiveram uma influência política impactante.

Pois é!!! Em face ao Tratado de Latrão, a Santa Sé conseguiu que fossem isentos de impostos alguns bens como as basílicas patriarcais de São João de Latrão, Santa Maria Maior e de São Paulo fora dos Muros, o Edifício de São Calisto, a residência pontifícia de Castel Gandolfo, dentre tantos outros bens, sendo necessário recordar que o Vaticano tem representação diplomática na maioria dos países do mundo e isto tem evidentemente um custo. Daí a necessidade de recursos mínimos para manter a Igreja funcionando. Na realidade, estes recursos são quase nada se comparado aos estados papais que a Igreja detinha, o correspondente a uma boa parcela da Itália. Engraçado que a Igreja perde em poder temporal, porque os seus bens se resumem a um território menor que a República de São Marinho (60,57 Km quadrados), porém ganha em poder espiritual uma vez que nessa época por ocasião do Concílio Vaticano I, foi proclamado o Dogma da Infalibilidade Papal. O papa ganhara autonomia espiritual e estava prestes a ganhar por ocasião do processo de unificação da Itália, autonomia temporal, independente de qualquer regime de governo. Providência de Deus!

Ah! E os processos de santidade. Anos de estudos acerca da vida, do testemunho, da moral de tantos bem aventurados, “candidatos a santos”, se assim podemos dizer. Estudos exaustivos, que podem durar décadas. Mas nos assuntos de fé qualquer urgência, é moderada pelo conhecimento de que, no Vaticano, se mede o tempo por século, e não por década. Um longo e detalhado acervo destes séculos preenche quase 48 quilômetros de prateleiras em uma das mais singulares instituições do Vaticano: os arquivos secretos, que contém inúmeros documentos essenciais da história ocidental. Mais de 1000 anos de memória. Documentos tão antigos que correm o risco de desaparecer. Aí entram em ação os restauradores, para que não se percam tais relíquias, pois uma instituição sem memória, é uma instituição sem futuro. Neste laboratório, tais conservadores estão em uma corrida contra o tempo, para restaurar as cartas escritas à mão por Michelangelo, ou os documentos relacionados ao julgamento de Galileu Galilei, e até mesmo uma petição de Henrique VIII pedindo que fosse declarada a nulidade de seu casamento com Catarina de Aragão. Pedido este negado, o que deixou este rei da Inglaterra enfurecido, de modo que acabou por separar-se da Igreja de Roma e declarar-se chefe de  sua própria igreja na Inglaterra. Se não fosse pelos esforços de conservação e pela campanha de digitalização, muito da memória de 1000 anos do mundo poderia ser perdida para sempre.

É claro que mediante o poder temporal do qual dispõe o papa, houve muitos abusos por parte dos filhos da Igreja. Abusos realizados por exemplo por Alexandre VI, ou Júlio II, Leão X, mas também houve muitos papas da renascença que deram grandes contribuições sem o detrimento da moral. Um deles, Gregório XIII fez uma mudança que nos afeta até hoje. Ele alterou o tempo, modificando o calendário, o famoso calendário gregoriano que nós seguimos. E  sem falar na história fascinante dos conclaves, na eleição do novo pontífice, onde tecnicamente qualquer católico, até leigo, pode ser eleito, porém historicamente os candidatos são cardeais. A forma de se chegar a uma decisão no conclave, permanece em segredo. A eleição acontece apenas na capela Sistina em meio a uma mistura de devoção espiritual e objetividade, onde os cardeais devem decidir o que determinará o curso da Igreja. E o homem que for o escolhido deve ser formidável para que o candidato veja que os eleitores convergem para o seu nome, até que se perceba quem obteve a maioria de 2/3 dos votos. Deve ser um momento apavorante.

Enfim!!! Um dos encantos do Vaticano é que muitas coisas diferentes, muitos eventos, fatos que mexem com a história política, social, cultural e econômica do mundo inteiro, podem acontecer ao mesmo tempo em um lugar tão pequeno. Enquanto ocorre ordenação de bispos em uma Basílica, em outro local acontece a cerimônia de canonização de novos santos, restaurações de obras de arte ou da biblioteca vaticana vão acontecendo simultaneamente, o papa se prepara para mais uma viagem internacional, ou recebe algum outro chefe de Estado. A vida no Vaticano é um circulo infinito de eventos espirituais e seculares, monumentais e mundanos. Onde se trabalha uma linguagem sutil e escorregadia de modo que por vezes não se consegue aprender numa vida. É bom entender que a administração do Estado Pontifício não se fundamenta em lidar somente com números, ou com um saldo positivo de oito milhões, quinhentos  e dezesseis mil dólares ao ano por exemplo, nem consiste apenas nas preocupações geradas com a quebra e o escândalo do Banco Ambrosiano, em 1982. E muito menos se prende às instituições das comunicações sociais ligadas à Santa Sé como a Rádio Vaticano e o L’Osservatore Romano. Mas sobretudo, mais do que administrar dólares, ou euros (a moeda oficial do Vaticano e de toda a Europa), a Santa Sé administra a Doutrina, é responsável por aquilo que nós devemos acreditar, a grande administradora dos tesouros de Deus, o permanente instrumento usado para a salvação da Humanidade, a ponto do Concílio Vaticano II chamá-la de “Sacramento universal da Salvação”. E ainda nada foi mencionado aqui sobre a história da caridade católica que mudou o mundo. Como grandes personalidades do tipo Francisco de Assis, Basílio, Pe. Pio de Pietrelcina, Tereza de Calcutá, Vicente de Paulo, João Paulo II, tornaram-se verdadeiros “super-heróis” da fé e da caridade administrando milhões sem desvalorizar o voto de Pobreza tão necessário para a maturidade espiritual. Mas isso já é outro assunto, que fica para um outro momento.

Até breve, caríssimos.

 
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